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Histórias e cultura

Chapéus de sageuk: o que o gat diz sobre a posição social de quem o usa

O gat, chapéu preto da Joseon, mudava de cor, de cordão e de enfeite conforme o posto. A enciclopédia coreana explica, e em 1895 a regra de nascimento acabou.

Redação Dorama de Perto · · Edição: Bruno Teles

Participantes em trajes tradicionais coreanos, com chapéus pretos, guarda-sol vermelho e espadas de bainha vermelha, diante de um pavilhão do palácio
Participantes do Royal Walking (왕가의 산책) em trajes tradicionais no palácio de Gyeongbokgung, em Seul, em 25 de março de 2015. Foto: Jeon Han / Korea.net · CC BY-SA 2.0. Imagem redimensionada para publicação.

O gat (갓), o chapéu preto de copa cilíndrica e aba que o homem adulto usava na Joseon, dizia a posição social de quem o usava por detalhes: a cor mudava conforme a ocasião, o material do cordão e o enfeite do topo seguiam o posto, e na corte o chapéu era outro, o sa-mo (사모). Em 1895 a diferença de nascimento no vestuário acabou.

A redação leu em 3 de outubro de 2026 o verbete 갓 da Enciclopédia da Cultura Coreana, da Academia de Estudos Coreanos, escrito em 1995 por Kang Sun-je, da área de história do vestuário, e revisado em 22 de junho de 2026, e um texto de 3 de agosto de 2006 do informativo da Agência do Patrimônio da Coreia sobre o artesão do gat. O verbete descreve a Joseon, não séries, e a redação não conferiu o figurino de nenhuma delas. As fotos têm licença livre e o vídeo é do canal oficial da Arirang TV.

O gat era o chapéu de sair de casa

Segundo o verbete, o gat tem duas partes: a copa (모자), que cobre a cabeça, e a aba (양태), que protege o rosto. Começou como peça prática, contra sol, chuva e vento, e virou chapéu de posição social quando materiais, formas e jeitos de fazer se multiplicaram. Ia sobre o cabelo preso em coque, com o mangeon (망건) e o tanggeon (탕건) por baixo, e era usado para sair de casa e em cerimônias, quando era preciso estar com o traje completo.

Chapéu cônico de fibra trançada, de aba larga, sobre roupas claras de tecido cru
Paeraengi (패랭이), chapéu trançado registrado em 20 de março de 2021; o título do arquivo o chama de chapéu de bambu. Foto: 고려 / Wikimedia Commons · CC BY 4.0. Imagem redimensionada para publicação.

Em sentido estrito, gat é o heugnip (흑립), o preto. Em sentido largo, o nome cobre também o paeraengi (패랭이), o chapéu trançado da foto acima, e variantes como o jurip vermelho e o baengnip branco, que entram na seção seguinte. O heugnip se firmou como o gat típico e foi usado tanto pela elite letrada (사대부) quanto pelo povo (서민). Entre os vários chapéus da época, diz a enciclopédia, foi o mais difundido, com preferência da camada dos yangban. Quem está chegando ao gênero encontra o contexto em o que é sageuk, o guia para entrar nos doramas históricos coreanos.

Preto, vermelho e branco: a cor muda o recado

A laca preta é a cor de origem do gat, mas a enciclopédia diz que a cor mudava com o uso. O jurip (주립), de laca vermelha, era o chapéu dos oficiais militares de alto escalão (danggwan, 당상관) quando vestiam o traje militar (융복). O baengnip (백립), branco, era o do luto: ia com a roupa de luto (상복), em geral as pessoas o usavam entre duas cerimônias do luto, a daesang (대상) e a damje (담제), e ele também aparecia em luto nacional (국상).

Um detalhe fica em aberto, e a redação o deixa à vista. O texto do verbete diz que o jurip era de oficial militar, mas a legenda da foto do jurip, na mesma página, diz oficial civil (문신). O informativo de 2006 chama o gat vermelho de hongnip (홍립) e diz que era do militar (무관). A matéria segue o texto principal da enciclopédia e o informativo, que concordam.

A leitura da redação: o preto era a cor de base, e o vermelho e o branco marcavam ocasião, guerra e luto. Ao ver um gat vermelho ou branco numa série, a pergunta útil é em que situação o personagem está, e não só quem ele é.

Cordão e enfeite do topo seguiam o posto

O cordão (갓끈) servia, na origem, para prender o chapéu sob o queixo e passou a ser também enfeite, de pano, de bambu ou de contas de materiais como jade, ágata, âmbar, coral e cristal. Os de contas e de bambu eram só enfeite e caíam compridos até abaixo do peito, e às vezes um cordão preto de pano é que prendia o chapéu. A enciclopédia cita um registro do ano 24 do rei Sejong (1442): cordões de jade, jade queimado e ágata só para os oficiais de alto escalão (danggwan) ou acima, enquanto os funcionários locais (향리) ficavam sem jade nem ágata, e nem o coral e o cristal eram permitidos a eles. O código Gyeongguk daejeon, também citado, deixou para os danggwan o cordão de ouro e jade.

Gat preto de aba larga e copa cilíndrica, com um cordão de segmentos bege e contas pretas pendurado ao lado e fita preta
Gat preto de aba larga, fotografado em 13 de dezembro de 2020, com o cordão pendurado ao lado; segundo a descrição do autor, o cordão é de marfim com contas de jade. Foto: 고려 / Wikimedia Commons · CC BY 4.0. Imagem redimensionada para publicação.

O enfeite do topo, o jeongja (정자), seguia a mesma lógica. Pelo Gyeongguk daejeon, o grão-príncipe (대군) usava jeongja de ouro, quem tinha posto de terceiro grau sênior (정3품) ou acima usava prata, os funcionários dos órgãos de fiscalização (사헌부 e 사간원), os governadores de província e os comandantes militares usavam jade, e o fiscal (감찰) usava cristal. A própria enciclopédia avisa que não dá para confirmar como esses enfeites eram na prática. Do que sobrou, só se conhece o okro (옥로), uma garça de jade que ministros, ex-ministros e comandantes usavam em cerimônias com traje militar e que os enviados ao exterior também usavam.

Na corte era sa-mo, e em 1895 o gat abriu para todos

Dentro do palácio, o gat ficou só por um tempo. O verbete conta que no reinado de Taejong os oficiais chegaram a entrar na corte de gat, até que um registro da época reclamou que, mesmo sem chuva nem neve, funcionários de todos os escalões andavam de gat no caminho da corte, o que não era conveniente. No ano seguinte a corte passou ao sa-mo (사모), e o gat ficou para a roupa do dia a dia (편복).

A aba também mudava de reinado em reinado. Pelo verbete, a aba larga e a copa baixa duraram até o fim do reinado de Myeongjong, a copa subiu e a aba estreitou desde o início do de Seonjo, e com Gwanghaegun a aba voltou a ficar larguíssima, com a copa bem baixa. No fim do reinado de Sunjo ela cobria por inteiro uma pessoa sentada, e, depois que Heungseon Daewongun assumiu o governo, o gat grande deu lugar ao gat pequeno dentro de uma reforma social. A leitura da redação: uma aba mais larga ou mais estreita de uma série para outra pode só refletir o reinado em que a história se passa, e a enciclopédia não fala de série nenhuma.

Em 1895, segundo o verbete, a regra permitiu que a gente de origem baixa (천인) usasse o gat e proibiu o paeraengi, e a diferença de nascimento no vestuário deixou de existir. De 1357, quando o gat foi mandado aos oficiais civis e militares, até 1895 são 538 anos. A conta é da redação e só mede o intervalo entre as duas datas, sem dizer que o uso foi igual em todo esse tempo.

Hoje o gat quase só aparece em sageuk

O informativo da Agência do Patrimônio, em texto de 3 de agosto de 2006 sobre o artesão Jeong Chun-mo, dizia que o gat já não era visto nem entre os velhos do campo e só aparecia de vez em quando em dramas históricos e filmes (사극 드라마나 영화). Pelo mesmo texto, fazer um gat leva 51 etapas: 24 na aba, 17 na copa e 10 na montagem final (입자). O ofício, o gat-il (갓일), foi declarado patrimônio imaterial importante em 24 de dezembro de 1964 e hoje consta como Patrimônio Imaterial Nacional (국가무형유산).

Quando um personagem aparecer de chapéu, três perguntas bastam: de que cor ele é, como são o cordão e o enfeite do topo, e onde o personagem está, na corte ou na rua. São perguntas da redação a partir do verbete, e não uma regra de figurino. O lugar do sageuk entre os outros gêneros está em gêneros de doramas: romance, thriller e sageuk.

Para ver como um gat é feito hoje, o canal oficial da Arirang TV publicou em março de 2026 um vídeo de 37 segundos. A descrição o chama de K-Heritage Tradition Reborn e credita a peça a Park Chang-young (박창영), apresentado como detentor do patrimônio imaterial nacional do gat-il.